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É inegável a influência da cultura africana na moda brasileira. “Os africanos começaram a produzir sua própria roupa, a partir de matérias-primas locais, e com o tempo essa passa a ser a roupa não só do escravo, mas também a do colono”[1], conforme afirma Júlia Vidal na obra O africano que existe em nós brasileiros. No entanto, hoje novos talentos resgatam estes traços para ecoar em uma nova moda que não apenas veste, mas cria identidade.

Lógico que não é possível resumir toda a diversidade da cultura africana ao se falar em uma moda afro, principalmente porque a sua influência aflora de forma heterogênea de acordo com a região e com o talento do artista. Assim, somos surpreendidos como uma moda rica em criatividade, estilo e materiais, que extrapola qualquer rótulo ou estigma.

 

Goya Lopes e a grife Didara.

Goya Lopes

Estampas assinadas por Goya Lopes/ imagem goyalopes.com.br

 

Um nome que logo se destaca na construção de uma moda afro-brasileira é o da designer têxtil baiana Goya Lopes, criadora da grife Didara (que significa “bom” na língua africana iorubá). Suas criações são estampadas com grafismos inspirados em motivos afro-brasileiros, misturando ecologia, pinturas rupestres e até a musicalidade da Bahia.

O resultado disso é uma moda original, de cores vivas e diversificada, que já conquistou nomes como o músico Moraes Moreira e o jamaicano Jimmy Cliff, e que já chegou em Roma e Nova York.

O sucesso é resultado de um grande talento e de bastante dedicação. Suas estampas e desenhos são realizados após muita pesquisa, com levantamento de dados e até consulta a sociólogos, para que sua ideia seja fundamentada como um conteúdo autêntico.

 

Emicida.

Desfile grife Emicida

Desfile da grife LAB ©foto: Marcelo Soubhia/AGÊNCIA FOTOSITE

 

Desde que surgiu no cenário musical brasileiro em 2012, Emicida se tornou um dos protagonistas da música nacional. Seus versos inteligentes e certeiros denunciam a realidade dura de um Brasil que vive longe das passarelas. Ou que pelo menos vivia, até a estreia do rapper na moda em 2016, quando assinou sua primeira coleção para a West Coast.

Longe de ser apenas uma aventura, a repercussão positiva logo revelou o quão promissora era esta incursão no mundo da moda, que rapidamente se consolidou com o seu desfile pela marca LAB criada em parceria com o seu irmão Evandro Fioti. Nesta primeira participação na São Paulo Fashion Week, desfilou uma coleção que misturou streetwear com influências africanas, prezando por um casting diversificado que levou uma maior representatividade para a passarela.

Desde então, a LAB vem conquistando o público e a crítica com um design sofisticado que não abre mão de certa casualidade. Levando para a passarela influências da alfaiataria, em paletós com “risca de giz”, calças e moletons oversized e até um “boné de pescador”.

A marca chegou a todo o Brasil por meio de uma parceria com a C&A, levando uma moda democrática e sem preconceitos para os quatro cantos do país.

 

Müe

Müe

Foto: Look de lançamento da primeira coleção da Müe, marca de Jorge Dias/ divulgação

 

Inicialmente estampando camisetas compradas no Brás, Jorge Dias (filho do Mano Brown dos Racionais MC’s) criou a Müe (se fala muê) com outros três amigos da Zona Sul de São Paulo. Tendo sua irmã, Domênica Dias, como modelo das criações, passou a confeccionar uma moda streetwear minimalista que rapidamente chamou atenção.

“A MÜE surgiu para trazer o estilo e a voz das ruas e da cultura da periferia impressos nas nossas roupas. Partimos do pressuposto que as peças vão além do vestuário porque são um meio de expressão, de passar uma mensagem.”, conta Jorge Dias [2].

Os irmãos também ganharam visibilidade atuando no clipe Boa Esperança do Emicida e na série 3%, da Netflix, trazendo maior atenção para a Müe.

 

Orgulho de ser afro-brasileiro

Esta nova moda vai muito além da inspiração na cultura africana. Trata-se de um vestuário que não falseia penteados e características afrodescendentes. Pelo contrário, escancara! E não só escancara, como resgata este orgulho com estilo, beleza e autenticidade.

 

[1] Júlia Vidal em entrevista à EBC em 07/02/2015, intitulada “Livro aborda influência da cultura africana no vestuário do brasileiro.
[2] Fonte: http://www.zonasuburbana.com.br/jorge-dias-filho-de-mano-brown-cria-marca-propria/
Imagem em destaque: estampa de Goya Lopes.