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A escala residencial ou cotidiana é a parte de Brasília planejada por Lúcio Costa para as pessoas morarem. E morar aqui não significa apenas um endereço para se residir todos os dias, mas sim um lugar para se viver com acesso a comércios locais e outras atividades cotidianas como ensino, esporte, recreação e cultura de vizinhança.

 

“É o jogo das três escalas que vai caracterizar e dar sentido a Brasília. A escala residencial ou cotidiana; a dita escala monumental, em que o homem adquire dimensão coletiva, a expressão urbanística desse novo conceito de nobreza. Finalmente, a escala gregária, onde as dimensões e o espaço são deliberadamente reduzidos e concentrados a fim de criar clima propício ao agrupamento. Poderemos ainda acrescentar mais uma quarta escala, a escala bucólica das áreas abertas destinadas a fins de semana lacustres ou campestres.” [1]

 

Esta quarta escala residencial tem um conceito tão revolucionário que se torna a obra-prima do urbanista, ficando conhecida no mundo todo como superquadra.

 

 

Origem do conceito.

Projeto Lúcio Costa

Croqui do Parque Guinle no Rio de Janeiro.

 

A ideia para a escala residencial de Brasília teve seu primeiro esboço em um outro projeto de Lúcio Costa, o Parque Guinle. Tratava-se de conjunto habitacional realizado em 1948, constituído por edifícios com pilotis, permitindo a circulação na vizinhança.

 

Além dessas semelhanças, os prédios também apresentavam outros elementos comuns às superquadras como a altura de seis pavimentos, os cobogós e as empenas laterais cegas.

 

 

O conceito da superquadra.

 

Assim Lúcio Costa descreve a superquadra:

 

“É um conjunto de edifícios residenciais sobre pilotis (que têm em Brasília, pela primeira vez, presença urbana contínua) ligados entre si pelo fato de terem acesso comum e de ocuparem uma área delimitada – no caso um quadrado de 280 x 280 metros envolto por renques de árvores de copas densas – e com uma população de 2.500 a 3.000 pessoas. O chão é público – os moradores pertencem à quadra, mas a quadra não lhes pertence – e é esta a grande diferença entre superquadra e condomínio. Não há cercas nem guardas e, no entanto, a liberdade de ir e vir não constrange nem inibe o morador de usufruir de seu território, e a visibilidade contínua assegurada pelos pilotis contribui para a segurança”.

 

O conceito é revolucionário porque torna a residência uma extensão da cidade, aberta ao público, contrapondo-se radicalmente aos condomínios urbanos, de acesso privado, restringindo o acesso das pessoas. A superquadra é um convite a vida em vizinhança, formando pequenas comunidades em seus núcleos, vivendo-se em harmonia com o espaço, com o verde (da escala bucólica) e a alguns passos do comércio.

 

 

Superquadra modelo.

superquadra de Brasília

Praça central da superquadra. Foto: Espaço Y.

 

Chamamos de superquadra modelo o conjunto que reúne as SQS 107, 108, 307 e 308, por ilustrarem fielmente o conceito planejado para a unidade de vizinhança, em que a cada quatro superquadras existiriam igrejas, escolas, cinemas e uma área verde destinada a clubes.

 

“A disposição dos edifícios é de forma livre e variada, tomando o cuidado de respeitar apenas dois princípios; o gabarito máximo, talvez seis pavimentos e pilotis, e a separação do tráfego de pedestres e veículos”, Lúcio Costa especifica em seu plano-piloto de Brasília.

 

Você pode saber mais sobre a superquadra modelo lendo o nosso artigo sobre o tema, em que mostramos porque “o conjunto arquitetônico da 308 sul é quase uma utopia urbana, atemporal e eterna, em que os moradores pertencem à quadra, mas a quadra não lhes pertence. Ali Lúcio Costa tornou possível que o silêncio e a tranquilidade andar de mão dada com a natureza e a vida comunitária. Opera Magna laureada como Patrimônio da Humanidade em 2009, jamais replicada com mesma perfeição, infelizmente, em outras superquadras de Brasília.”

 

 

[1] Fonte: Entrevista ao repórter Omar Abbud, Jornal do Brasil,  08/11/1961.

 

 

Outros artigos.

 

A Escala Monumental de Brasília.

 

A escala bucólica e os parques de Brasília

 

A Escala Gregária de Brasília.

 

A poesia oculta no projeto de Brasília.