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Em Brasília, Athos Bulcão nos deu uma identidade visual, Lúcio Costa um conceito, Burle Marx os jardins, Niemeyer as nossas curvas e Renato Russo uma voz. Nas suas músicas pela Legião Urbana ele falou sobre a cidade como ninguém, criando a alcunha que melhor identifica a Capital Federal: “Meu Deus, que cidade linda! Neste país lugar melhor não há.” [1]

 

Nascido no Rio como Renato Manfredini, veio para Brasília na adolescência onde construiu sua identidade de artista e ainda influenciou diversos outros a seguir pelo mesmo caminho criando o movimento da Turma da Colina de onde eclodiria grupos como Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana.

 

A história de Brasília e Renato andam juntas. Foi na Capital Federal que aquele jovem magrelo do Rio se tornou Renato Russo, iniciando uma consolidada carreira na maior banda de rock que o Brasil já teve, levando milhões de brasileiros a cantarem os muitos hinos que escreveu. Músicas que direta ou indiretamente falavam de Brasília.

 

 

A Turma da Colina.

Renato Russo

Renato Russo e os irmãos Lemos na Colina da UnB. Foto: Globo

 

No final dos anos 70 do século XX, além de não haver internet e outros meios que facilitassem o acesso às novas bandas estrangeiras, o Brasil estava fechado sob um rígido regime militar. Poucos acabavam sabendo dos lançamentos mais alternativos, geralmente os filhos de diplomatas e de quem vivia nos estrangeiro. Por isso, o punk chegou clandestino em Brasília, em fitas cassete de alguns adolescentes.

 

Dois deles eram os irmãos Fê e Flávio Lemos que foram morar na Colina, um conjunto de prédios exclusivos para professores da Universidade de Brasília, onde junto com Renato Russo e André Pretorius (gringo filho de um diplomata da África do Sul) formaram o Aborto Elétrico.

 

Embora a banda tenha existido apenas naquele final de anos 70, ele desencadeou todo um movimento musical na cidade, influenciando outras bandas locais como Paralamas do Sucesso e Plebe Rude, além de gerar outras após o seu fim. Neste caso, Legião Urbana e Capital Inicial, que herdaram algumas canções dessa época como “Que País é Este” e “Veraneio Vascaína”.

 

Neste período, o jovem Renato ainda emplaca uma carta na publicação inglesa Melody Maker (a Bíblia do Rock na Inglaterra) abordando a morte do ícone punk Syd Vicious. Ele escreveu: “Acho que meu pai sabia, ele provavelmente viu na TV ou leu nos jornais, mas não me contou. Um amigo me disse e eu não acreditei. Tive que ligar para o meu professor de violão e perguntar se ele tinha ouvido alguma coisa. Aconteceu numa sexta-feira, mas eu só soube da notícia no domingo à noite. Nada me atingiu de jeito que a morte de Syd me atingiu. Chorei a noite toda, e era como uma espécie de grito, doloroso, não só por Syd, mas por tudo.” [2] O punk morre, também o Aborto Elétrico, mas nasce a Legião Urbana.

 

 

Legião Urbana.

Renato Russo

Banda Legião Urbana em Brasília. Foto: Reprodução.

 

Renato Russo monta com Marcelo Bonfá (bateria), Dado Villa-Lobos (guitarra) e Renato Rocha (baixo) a Legião Urbana na primeira metade dos anos 80. Lançam o primeiro disco em 1985, ano em que acaba a ditadura e no qual a cultura rock vira mainstream no Brasil como evento Rock in Rio.

 

O sucesso imediato não foi nenhuma surpresa. Renato planejou o caminho da banda com muita antecedência e nos mínimos detalhes. Sabia que aquilo seria uma legião, de fãs e admiradores, de vozes a ecoá-lo por todos Brasil.

 

As músicas revelavam um talento impressionante para as letras, tão bem interpretadas pela sua voz que emulava (o não tanto rockeiro) Jerry Adriani. Criando hinos que fizeram toda a Geração Coca-Cola cantar em uníssono, como “Será”, “Tempo Perdido”, e “Que País é Este”.

 

Várias de suas canções retratavam Brasília, expondo a realidade daquela cidade jovem (ambos tinham a mesma idade) que o restado Brasil desconhecia. Assim nasceram hits “brasilienses” como “Eduardo e Mônica” (sobre um casal tipicamente da cidade) e o épico político “Faroeste Caboclo” (que retrata a saga de João de Santo Cristo tentando a sorte na cidade).

 

Como nenhum artista até então, Renato coloca Brasília no coração do mundo pop, revelando um lado humano da capital ignorado nos outros Estados. E aborda a cidade com carinho, enxergando uma identidade que ia se construindo com os habitantes que ocuparam o Plano Piloto de Lúcio Costa.

 

 

O último show em Brasília.

Renato Russo

Muro pichado após o incidente no Mané Garrincha. Via FilhosdaRevolução

 

O último encontro entre a Legião Urbana e Brasília terminou em tragédia. A banda estava no topo da carreira, e voltava a Brasília para um show no Estádio Mané Garrincha, em 18 de junho de 1988. Era para ser uma grande celebração, mas virou Gimme Shelter, como Renato disse depois comparando o ocorrido a grande tragédia que se deu em um show dos Rolling Stones nos Estados Unidos.

 

A segurança era precária, houveram muitos improvisos na logística e a banda encontrou um público impaciente quando chegaram. E à medida que uma série de coisas iam dando errado, a situação da Legião no palco ficou insustentável levando o show a ser interrompido após 40 minutos.

 

O resultado dos tumultos que se sucederam foram 223 pessoas feridas, 58 presas, além de ônibus destruídos no centro da cidade e parte do Estádio Mané Garrincha deixado aos pedaços. No dia seguinte, a cidade amanheceu com diversos muros pichados com a frase: “Legião nunca mais”.

 

 

Um adeus precoce.

 

Apesar desse episódio, a banda jamais retornou por outro motivo: falta de tempo. E não se trata de falta de oportunidade. Quando finalmente os shows haviam se profissionalizado a Legião acabou, deixando uma história que durou pouco mais que uma década.

 

Renato dizia que aos 40 se dedicaria ao cinema e aos 60 à literatura. Tudo sempre bem planejado. Mas quis a vida que não fosse assim, infelizmente. E em outubro de 1996 Renato Russo faleceu com apenas 36 anos em decorrência de complicações de saúde causadas pela AIDS.

 

“Uma pesquisa recentemente divulgada pela Ovi by Nokia, marca de serviços para internet, aponta que o grupo nacional campeão de downloads no País é ele, o Legião Urbana. O grupo, também integrado por Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, se desfez em 1996, com a morte do vocalista e seu principal compositor, Renato Russo, vitimado pela Aids. Ou seja, o Legião não chegou a pegar a fase da popularização da internet enquanto esteve no auge do sucesso. Mas se perpetuou com a geração seguinte. Segundo Luiz Garcia, gerente de marketing da gravadora responsável pela comercialização do grupo, o Legião vende cerca de 20 mil cópias por mês, entre todos os produtos do catálogo da marca. O que é um feito e tanto, em um mercado fonográfico cada vez mais diminuto devido à pirataria e ao comércio de músicas online. Para tanto, nem é preciso uma ação de marketing forte. `É mais fácil vender o Legião do que qualquer outro. De vez em quando fazemos campanha de preço, dispondo de três CD’s a preço de dois. Mas nem precisa tanto. Entre artistas que já não produzem inéditas, só os comparo aos Beatles, que também vendem sem precisar de esforço’, afirma.” [3]

O legado do artista é incalculável e persiste forte ao longo dos anos. Indo parar no cinema com o filme “Somos Tão Jovens” de Antônio Carlos Fontoura, contando a história de Renato Russo. Além dos filmes “Faroeste Caboclo” e “Eduardo e Mônica” (ainda em produção) que foram projetos do diretor René Sampaio. Além de homenagens recorrentes, tributos e muitas covers que mantém viva a música de Renato Russo no Brasil inteiro.

 

 

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[1] Fonte: Trecho da música Faroeste Caboclo lançada em 1987 no disco Que país é este?

[2] Fonte: Matéria da Showbizz “Deu no Melody Maker”. Reproduzida aqui.

[3] Fonte: Último Segundo – IG