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A 308 Sul é a superquadra modelo de Brasília. É como aquele inesquecível primeiro parágrafo que inicia uma grande obra, desses aos moldes de Tolstoi, Dickens, Kafka, Austen, Nabokov ou Camus. Que ao mesmo tempo que captura e encanta o expectador, também define a alma do resto da obra.

 

Inaugurada em 1962 e projetada pelo próprio Lúcio Costa, pai do conceito superquadra, a 308 sul foi concebida como modelo para as demais, sendo aquela a ser copiada e superada, mas que se tornou insuperável por um arroubo de genialidade de seu criador, e por reunir em um só endereço a assinatura dos homens que tornaram Brasília única: Oscar Niemeyer, Athos Bulcão e Burle Marx.

 

A “super” superquadra.

 

Se um dia você quiser mostrar para uma pessoa o que é uma poesia urbana, convide-a para uma caminhada pela 308 sul. Andando sem compromisso pela superquadra é fácil notar o capricho de Lúcio Costa ao traçar o urbanismo do espaço, na forma como distribui os blocos, combinando-os com uma infraestrutura completa de praças, escolas, clube, comércio, biblioteca e igreja, bastante fiel ao projeto proposto no Plano Piloto de Brasília, como se lê a seguir:

 

“A cidade seria organizada em super-quadras com blocos residenciais, e nelas se localizariam as escolas primárias, de modo que as crianças percorressem o menor trajeto possível para atingi-las, sem interferência com o tráfego de veículos. Já as escolas secundárias, que se destinavam aos jovens e adolescentes, seriam construídas em locais pré-determinados e de fácil acesso, onde também se localizariam a igreja, o cinema, o comércio de varejo, etc”

 

Tudo em um só lugar, mas tudo no seu lugar. Com todos os blocos de apartamentos sobre pilotis, padronizados com piso escuro e colunas de mármore na cor branca, deixando os vãos livres para democratizar o passeio. Blocos cujas fachadas alternam um lado com cobogó e o outro com janelões coloridos, apelidados de “televisão dos cadangos”, com todos os quartos e salas voltados para o nascente.

 

interior da superquadra modelo

Pilotis padrão da quadra com o piso escuro e as colunas em mármore branco. Foto: Espaço Y.

 

Contudo, parte do encanto deste padrão está justamente na quebra do padrão. Todos sabemos que as quadras 300 tem blocos de 6 andares enquanto as 400 tem apenas 3 andares, certo? Exceto a 308, única com um prédio de 4 andares! E mesmo sendo mais baixo, a altura diferenciada do bloco D nem chega ser notada tamanha é a precisão obtida na disposição harmônica com o restante da superquadra.

 

superquadra modelo

Único bloco de 4 andares das superquadras de Brasília. Foto: Espaço Y.

 

É também a primeira quadra com estacionamento subterrâneo, escondendo carros das ruas para evidenciar a vista dos jardins e dar espaço ao encontro. Seja se encontrando nas praças e escolas do interior da quadra ou no clube, na igreja ou no comércio de seus arredores.

 

Escola Classe, Escola Parque e o Jardim de Infância.

superquadra modelo

Escola Classe projetada por Oscar Niemeyer. Foto: Espaço Y.

 

Aqui foi instalada a primeira escola classe de Brasília, projetada por Niemeyer, inaugurando o modelo de escola democrática concebido pelo renomado educador Anísio Teixeira. A ideia era uma escola aberta, projetada para incentivar o aluno a pensar por si próprio.

 

O projeto demandava uma escola em tempo integral, usando o turno da manhã para as disciplinas convencionais e o contraturno da tarde para atividades voltadas à mente e ao corpo. Daí a necessidade de uma escola parque como a que encontramos na 308, complementando as atividades curriculares das crianças.

 

superquadra modelo

Jardim de Infância visitado pela Rainha da Inglaterra. Foto: Espaço Y.

 

Nesta superquadra ainda encontramos um Jardim de Infância, decorado com ladrilhos hidráulicos de Athos Bulcão. Cenário para um dos dias mais especiais da história da 308 sul, quando foi visitada pela Rainha da Inglaterra Elizabeth II, monarca que acabou apaixonada pela inteligência urbanística da região.

 

A Igrejinha.

superquadra modelo

Igrejinha de Brasília. Foto: Espaço Y.

 

A capela Nossa Senhora de Fátima, mais conhecida como a Igrejinha, foi construído em apenas 100 dias como pagamento de uma promessa de Dona Sarah Kubitscheck, sendo o primeiro templo de alvenaria erguido em Brasília.

 

É uma dessas joias da arquitetura de fama internacional, concebida por Oscar Niemeyer como se imitasse a um chapéu de freira. Chega a ser difícil de explicar a magnitude da obra uma vez que o resultado é provocadoramente sutil.

 

“Três pilares similares apoiam as vigas. Estão locados em cada um dos três vértices do triângulo isósceles da laje. O maior deles apoia o vértice que determina a extensão do triângulo da laje. Apresenta uma seção inicial inferior conformada por um trapézio simétrico de quatro metros e meio de altura alinhada com a bissetriz do vértice da laje, uma base menor de vinte centímetros e uma base maior voltada ao exterior de cinquenta centímetros. A base menor do trapézio mantem-se constante em todos os oito metros de altura do pilar e eleva-se perpendicularmente à base. A base maior, por sua vez, eleva-se seguindo um desenho formado por um trecho inicial em arco de circunferência e um trecho final em reta, e diminui sua largura até encontrar num único ponto a aresta comum entre as cinco vigas da cobertura. A seção superior do pilar transforma-se assim num triângulo isósceles de vinte centímetros de base e trinta centímetros de altura. Uma sutileza marca o ponto de encontro entre esse pilar e esse vértice do triângulo da cobertura: enquanto que frontalmente a aresta comum entre as cinco vigas da cobertura dão continuidade colinear às arestas curvas do pilar em ascensão, a face lateral das vigas perimetrais não coincidem coplanarmente com as faces laterais do pilar, produzindo uma pequena região de sombra que destaca e delimita ambos elementos estruturais: pilar e coberta.”2

 

A fachada é toda coberta pelos azulejos de Athos Bulcão, sendo que o tema desenhado para este edifício é o mais popular dentre todos criado pelo artista. No interior da capela ainda haviam afrescos com bandeirolas e anjos pintados por Alfredo Volpi.

 

Morando em um jardim.

superquadra de Brasília

Praça central da superquadra. Foto: Espaço Y.

 

No coração da superquadra modelo de Brasília existe uma praça de bancos e muretas sinuosas que se combinam com as árvores de troncos retorcidos que dão fama ao local. Assinada pelo paisagista Burle Marx, o projeto finda em plataformas dispostas ao centro de uma piscina de areia.

 

Já enfrente ao bloco F, vemos um segundo jardim assinado pelo mestre, bem ao estilo modernista, com um laguinho repleto de carpas que surpreendem qualquer visitante.

 

superquadra modelo

Paisagismo assinado por Burle Marx. Foto: Espaço Y.

 

O restante da superquadra é bastante arborizado com Pau brasil, Ipês e Palmeiras, além de árvores frutíferas bem adaptadas ao clima do cerrado. Sendo que ao lado da quadra, voltado para a 108, ainda encontramos a Árvore dos Desejos, um portal moldado pelas raízes de duas árvores, dando acesso à primeira banca de revistas de Brasília.

 

superquadra modelo

Túnel que atravessa a árvore dos desejos. Foto: Espaco Y.

 

 

Clube de Vizinhança.

superquadra modelo

Clube de Vizinhança. Foto: Espaço Y.

 

O Clube Unidade de Vizinhança nº 1 possui piscina para adultos, piscina infantil, campo de futebol, ginásio coberto e um espaço para eventos, que durante muito tempo abrigou diversos bailes concorridos da cidade.

 

O local se destacou, no entanto, pelo esporte mesmo. Foi celeiro de diversos talentos, incluindo o maior jogador de basquete do Brasil, Oscar Schmidt.

 

Patrimônio da humanidade.

 

O conjunto arquitetônico da 308 sul é quase uma utopia urbana, atemporal e eterna, em que “os moradores pertencem à quadra, mas a quadra não lhes pertence”3. Ali Lúcio Costa tornou possível que o silêncio e a tranquilidade andar de mão dada com a natureza e a vida comunitária. Opera Magna laureada como Patrimônio da Humanidade em 2009, jamais replicada com mesma perfeição, infelizmente, em outras superquadras de Brasília.

 

 

[1] Fonte: projeto Lúcio de Costa para o Plano Piloto de Brasília.
[2] Fonte Archdailiy
[3] Frase de Maria Elisa, filha de Lúcio Costa