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Será que a cidade projetada para os blocos de 6 andares deve se verticalizar? A polêmica é antiga e impossível de ser ignorada quando falamos em planejamento urbano. É preciso discutir o tema, afinal, a verticalização das cidades tem suas vantagens e desvantagens, e só olhando para os dois lados da moeda é que poderemos responder a pergunta.

 

Em 2012, no auge dos grandes lançamentos que buscavam cada vez mais o céu de Brasília, o Iphan soltou uma portaria delimitando um teto no horizonte dos arredores do Plano Piloto. Na época, conforme defendido pelo superintendente do Iphan no Distrito Federal, Alfredo Gastal, a medida foi realizada para  “garantir a leitura do traçado e a preservação do espírito, concepção e ambiência do Plano Piloto, projetado por Lucio Costa.” [1] Este teto gerou polêmica, pois foi sancionado sem muito diálogo com a sociedade e engessou a cidade sem ponderar os prós e contras da verticalização.

 

Passados alguns anos, a pauta continua despertando reações apaixonadas de arquitetos, urbanistas, moradores e empresários. Principalmente porque de lá pra cá o mundo mudou, passado por uma revolução rápida que tem trazido novas discussões, como abordamos ao falar da verticalização das cidades e a vida minimalista dos millenials.

 

“Então fica a pergunta: a verticalização das cidades é inevitável? Este questionamento só é relevante porque existem impactos polêmicos na dinâmica urbana quando começam a surgir os arranha-céus, como por exemplo: aquecimento térmico, menor ventilação, alto adensamento de pessoas e de trânsito em pequenas áreas, etc. Efeitos que afetam não só a vida dos grande edifícios mas de toda a vizinhança.

 

A dificuldade da metrópole em se polinuclealizar, deixando de ser dependente de um único centro metropolitano, agrava as consequências negativas da verticalização das cidades. Por outro lado, todos querem viver próximo ao centro onde tudo acontece e perto do trabalho, obrigando o adensamento por verticalização. Então qual a solução?”

 

 

A relação entre a verticalização e o custo dos terrenos.

Urbanismo e verticalização

A verticalização muda toda a paisagem urbana.

 

O processo de verticalização urbana começou no século XIX em Nova York e Chicago graças ao desenvolvimento de duas tecnologias: o elevador e a estrutura de aço dos prédios. Com essas inovações foi possível se construir edifícios maiores em regiões com alta demanda imobiliária nas cidades, principalmente em endereços onde o valor do terreno já era alto.

 

Como sempre existiu essa relação entre o custo da terra e a demanda imobiliária, com o passar das décadas a maioria das metrópoles americanas acabaram desenhando uma linha de horizonte muito parecida entre elas. Sendo que na maioria dos casos, os aranha-céus ficaram concentrados no centro da cidade, não havendo verticalização nas demais áreas.

 

No entanto, algo bem diferente ocorre no Brasil, onde os prédios sobem cada vez mais altos em todos os bairros. Basta trazer alguém que não conhece São Paulo e pedir para ele apontar o centro da cidade apenas sobrevoando os edifícios. Não vai conseguir. É impossível de se identificar.

 

E isso é resultado de um adensamento ineficiente do trânsito em toda cidade enquanto em metrópoles verticalizadas apenas no centro é possível solucionar a mobilidade com transporte público específico para esse perfil de área.

 

 

Desvantagens da verticalização.

 

Todo prédio que sobe afeta de alguma forma as pessoas ao seu redor. A grande concentração de prédios altos criam, por exemplo, os fenômeno “ilhas de calor” dentro da cidade, podendo aumentar a temperatura em algumas áreas em até 6ºC [2]. Outra característica do adensamento de arranha-céus é a canalização dos ventos, gerando um enorme desconforto para quem anda nas calçadas.

 

Outros fatores podem tornar o processo de verticalização ainda mais nocivo, segundo os especialistas. Para Anthony Ling, um deles é o afastamento e isolamento dos edifícios da calçada e dos prédios próximos, para que tenham maior altura. “Tal regulação prejudica a caminhabilidade das ruas, dado que afasta as atividades do edifício dos pedestres consumidores e quebra a continuidade das fachadas, fator importante da vida urbana e emulado nas lojas dos shoppings centers”, afirma.[3]

 

 

Vantagens da verticalização.

Urbanismo e verticalização

É preciso planejar a verticalização de forma conjunta com as áreas verdes.

 

“A verticalização é um fenômeno global, diretamente ligado à urbanização – ou seja, o aumento populacional das grandes cidades, em detrimento da vida no interior. De acordo com o último Censo do IBGE, o número de apartamentos no Brasil cresceu 43% entre 2000 e 2010, passando de 4,3 milhões para 6,1 milhões. Os especialistas em planejamento urbano concordam que a verticalização é um processo sem volta. Para que ele traga benefícios, é preciso garantir que, ao acomodar moradores em prédios mais altos, seja possível aumentar a densidade demográfica, ou seja, ter mais pessoas morando em uma determinada área.” [3]

 

Quando vemos uma densidade alta próxima a uma área da cidade, é possível que haja uma redução dos custos globais com transporte, além da vantagem de ser uma forma menos custosa de se construir. Mas para isso é preciso um planejamento por parte do poder público antes da ocupação.

 

O economista Daniel McMillen pondera: “Se a população de alta renda estivesse concentrada em prédios altos perto do centro, se se permitisse que o mercado fizesse isso, a população de menor renda não ficaria tão distante quanto é obrigada a estar atualmente.” [4]

 

 

E Brasília com isso?

 

Brasília é uma cidade que foge dos padrões das metrópoles internacionais, tendo sido planejada com um conceito de cidade parque que une arquitetura, jardins e grandes avenidas. Algo fora do padrão à época de sua construção, tão singular que acabou encantando o Brasil e mundo, tornando-se patrimônio histórico na década de 80.

 

Pensar na verticalização dos arredores da área tombada é para muitos o mesmo que  “desfigurar” a cidade. Já para outros é uma necessidade vital para manter a qualidade de vida da região.

 

“Tempo seco, umidade baixa e calor são características conhecidas do clima sob o qual os brasilienses vivem boa parte do ano. No entanto, o que era para ser um fenômeno natural está se agravando em áreas verticalizadas da cidade. Brasília deveria ter o clima extremamente ameno, mas grandes construções no Distrito Federal geram ilhas de calor. Estudos e especialistas apontam o aumento da temperatura nos Setores Bancários Sul e Norte e na região de Águas Claras. A variação pode ser de até 6°C e o calor permanece por mais tempo. A falta de vegetação e de planejamento são as principais causas desse problema.” [2]

 

Por fim, o problema da verticalização na maioria das vezes é não se pensar nela. E por isso, ela acaba acontecendo sem planejamento adequado para minimizar os seus impactos urbanos. É preciso pensar, planejar e conversar para que possamos continuar nos orgulhando dessa incrível cidade que é Brasília.

 

 

Leia também:

Tendências da arquitetura contemporânea.

 

 

[1] Fonte: Uol

[2] Fonte: Correio Braziliense

[3] Fonte: G1

[4] Fonte: entrevista com o economista Daniel McMillen

Imagens do artigo: FreePik