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Há o Guimarães Rosa escritor, autor de alguns clássicos da literatura brasileira. E há o Guimarães Rosa, um dos dez edifícios mais bonitos de Brasília segundo o Correio Braziliense1, cuja arquitetura se volta para a obra do primeiro, para a poesia do caminho que olha para o infinito, a beleza dada ao eterno.

Localizado na 514 norte, o prédio inspirado na poesia do mineiro de Cordisburgo é hoje sede da ANTAQ – Agência Nacional dos Transportes Aquaviários, encantando os brasilienses por ser “um enlevo para os olhos de uma cidade nascida da melhor arquitetura de seu tempo1”.

Se em Brasília a arquitetura se enamorou da poesia pelo traço de Niemeyer desde a sua construção, agora ela se renova pela Espaço Y inspirada por Guimarães Rosa. Para isso, a empresa escolheu os arquitetos Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz  e deu a eles o desafio de realizar algo original e diferenciado dentro das rígidas normas de padronização da cidade.

O resultado é uma obra moderna e bela, composta de vãos sinuosos que passeiam por todos os andares, criando um movimento dinâmico e leve no átrio do edifício. Ousadia que se consolida nas curvas de uma joia moderna, batizada com o nome do grande autor, Guimarães Rosa.

Dizem que a obra magna de Guimarães Rosa não termina. O desfecho de Grande Sertão: Veredas suspende a narrativa sem finalizar a história de Riobaldo, encerrando no meio do caminho, justo com a palavra “travessia”, a derradeira do livro. Ao fim desse monólogo de 500 páginas não sabemos se o protagonista vai encontrar a paz. Mesmo se tornando um devoto dedicado por orientação de Quelemém, o texto finaliza sem sabermos como termina o pacto e se ele enfim terá paz salvando sua alma.

Provavelmente o romance poderia seguir infinitamente, por muitos outros caminhos sinuosos do sertão, na travessia que tende ao infinito, na poesia elouquente onde cabe o mundo inteiro. Mas o autor faz sua escolhas e nos revela apenas o que nos cabe. Afinal, a arte é o ofício do dito não dito, daquilo que não se encerra nele mesmo, do atemporal e do caminho sem fim.

A arquitetura também pode seguir por muitos caminhos. No caso deste edifício, a Espaço Y tinha o desafio de atender às normas rígidas de padronização da capital, replicando mais do mesmo. Mas dentro dessa limitação optou seguir pelo belo, pela poesia feita de concreto, pelo espaço que inova ao tornar o cotidiano mais interessante. Optou mais uma vez se inspirar em Guimarães Rosa e acabou entre os dez prédios da “nova (e boa) arquitetura da Capital”.

 

[1] “A nova (e boa) arquitetura da capital”, matéria publicada em 30 de setembro de 2012 pelo Correio Braziliense em que é listado um ranking com os 10 prédios atuais mais bonitos e originais de Brasília, conforme votação realizada entre especialistas escolhidos pelo jornal.