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Quem foram as mulheres que fizeram história em Brasília? Quando ouvimos sobre a origem da cidade, fica uma certa percepção de se tratar de uma história protagonizada exclusivamente por homens, um “clube do bolinha” sob medida para a epopeia da construção. É como se elas não existissem, aparecendo vez ou outra nos rodapés dos registros. Mas a história não foi bem assim.

Para se ter uma ideia, enquanto vemos homens aos montes nas fotografias e videos que registraram a história, em 1959, cerca de 50% da população era de mulheres, sendo quase um terço de todos os trabalhadores, segundo o IBGE1.

Enquanto enaltecemos o papel de Jucelino Kubitscheck neste enredo, poucos mencionam sua coprotagonista Sarah, cujo nome é tão recorrentemente homenageado ao batizar escolas e hospitais, mas quase que ausente nas linhas da construção da cidade. Quase sempre lembrada como primeira-dama e pouco citada pelo legado e pioneirismo no ativismo social. 

Se estampamos em camisetas e souvenirs frases sobre a Brasília de Caetano e Alceu Valença, raramente mencionamos as crônicas “Brasília” e “Brasília: Esplendor” escritas por Clarice Lispector com fina poesia ao contemplar a cidade que a deixava perplexa: “Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. – Nunca vi nada igual no mundo”. Afinal, escreveu ela, “a alma aqui, não faz sombra no chão2”. E se Brasília tem alma, Clarice foi a primeira a enxergá-la.

Se temos um herói em Renato Russo, cujos hinos atravessam gerações de legionários a cantá-los de cor, aos poucos vamos esquecendo de Cássia Eller, que tanto amou Brasília. “A gente gosta, a gente guarda. Quem ama a gente, a gente cuida. E pro resto a gente mostra a língua”, ela debocharia da gente hoje com seu característico bom humor.

Exemplos assim só mostram um pouco da falta de apreço que temos com a memória das mulheres que fizeram história em Brasília. São tantos nomes, tantas pioneiras, artistas, empresárias, agentes culturais, políticas, acadêmicas, trabalhadoras e gente da nossa gente. Tão fundamentais para a capital um dia, hoje esquecidas.

Atualmente, algumas iniciativas buscam resgatar estas longas linhas apagadas da nossa história, voltando o olhar para as mulheres que fizeram suas vidas neste cerrado. Exemplo disso é o filme Poeira & batom no Planalto Central – 50 mulheres na construção de Brasília, de Tânia Fontenelle. Uma obra que reescreve uma história tão familiar aos brasilienses, inserindo muitos novos, e interessantes, capítulos a um dos momentos mais interessantes da História recente do País.

[1] Mulheres que ajudaram a construir Brasília e foram esquecidas, no portal Metrópoles.

[2] Crônicas Brasília e Brasília: esplendor, de Clarice Lispector.

[3] Documentário Cássia Eller de Paulo Henrique Fontenelle.