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O acaso permeia boa parte da história da avenida mais famosa de Brasília: a W3. Endereço onde a cidade começou, prosperou e, também, onde primeiro desandou, a avenida que um dia foi o coração comercial da cidade hoje grita por revitalização.

 

Inicialmente, a Avenida W3 era um dos limites no lado oeste da área urbana, planejada como uma via de serviço por Lúcio Costa no item 16 do Relatório do Plano Piloto de Brasília. Lá dizia: “(…). Ao fundo das quadras estende-se a via de serviço para o tráfego de caminhões, destinando-se ao longo dela a frente oposta às quadras à instalação de garagens, oficinas, depósitos de comércio em grosso, etc., e reservando-se uma faixa de terreno, equivalente a uma terceira ordem de quadras, para floricultura, horta e pomar. (…).”1 Ou seja, depois da W3 haveria um extenso pomar ocupando as quadras 700, bem diferente das casas geminadas que observamos hoje.

 

No entanto, lá que era uma via de serviço pavimentada apenas para dar acesso aos depósitos e garagens do comércio local (quadras 500), originalmente planejado por Lúcio Costa para que as lojas fossem voltadas para as superquadras nas 300, aconteceu que por um acaso os engenheiros da NOVACAP cometessem o engano de edificar o primeiro bloco ao contrário, com a frente das lojas na W3 sul, selando o destino da avenida.

 

Assim nasce o primeiro passeio público da nova capital federal, que rapidamente vai sendo ocupado por bares, lojas de departamentos, restaurantes, butiques, e, principalmente, pelos primeiros candangos. Isso porque a cidade acaba surgindo a sua volta, com as superquadras de um lado e as casas geminadas do outro, bem no meio da Asa Sul e longe do futuro Setor Comercial Sul que tardou a sair do papel.

 

O apogeu da W3.

 

A antiga via W3

Via W3 no final dos anos 60. Imagem: Blog do Flávio Gomes.

 

O sucesso imediato transformou a W3 no ponto de encontro da cidade, atingindo seu esplendor nas décadas de 60 e 70 como artéria comercial de Brasília. “As famílias saiam da missa da Dom Bosco e iam passear na W3 Sul (…). Era o lugar da “paquera”(…). Nas calçadas a multidão era tanta que ficava difícil evitar esbarrões. No auge da W3 Sul um bom programa era pegar uma matinê no Cine Cultura, que ficava na 507 Sul, ou comer a pizza do Roma considerada a melhor da época.”2

 

Atraindo cada vez mais pessoas e trânsito, a avenida que nem deveria ter sinais de trânsito, começou a ter problemas com acidentes e até atropelamentos. Um deles protagonizado pelo próprio Oscar Niemeyer ao colidir seu fusca com um ciclista em 1965.

 

O abandono da W3.

 

Mas quis o acaso que a sorte da W3 começasse a mudar a partir dos anos 80 com a inauguração  de novas galerias e shoppings que surgiam ano após ano em Brasília, esvaziando o então pujante comércio de sua freguesia.

 

As consequências da perda de público logo aflorou, com lojas e mais lojas fechando as portas. Não por acaso, o abandono trouxe insegurança para a região e desvalorizou os imóveis. “A partir do fechamento destes estabelecimentos, o processo de deterioração do espaço público foi acelerado tendo em vista que as antigas atividades foram substituídas por outras pouco rentáveis ou que não se enquadravam no contexto de uma avenida comercial, como por exemplo: templos, concessionárias de veículos, etc. Além disso, a provisoriedade de algumas instalações, o calçamento e o mobiliário urbano de baixa qualidade contribuíram para que a imagem cotidiana da avenida causasse desestímulo aos comerciantes e usuários refletindo negativamente no mercado imobiliário.”3

 

Revitalização da W3.

 

Revitalização da W3.

Projeto para VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) para a W3. Foto: divulgação.

 

A situação de descaso com a região tem mobilizado a comunidade e o poder público, que gestão após gestão criam planos e mais planos de revitalização da W3, sem que nada saia do papel. Já foram feitos concursos com urbanistas e arquitetos e até foi proposto um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) com o intuito de revitalizar a avenida. Mas nada se concretizou.

 

Todavia, uma ponta de esperança vai surgindo com um redescobrimento da antiga W3, que vem atraindo novas modalidades de serviços para ocupar seus endereços vazios. Sejam espaços de coworking, coletivos culturais, bares ou mercadinhos, uma nova dinâmica econômica vai se encontrando às margens da avenida, trazendo um público novo para a região.

 

Revitalização da W3

Edifício Espaço 508 Corporate na W3 Norte.

 

Já pelo outro lado, principalmente no lado norte da avenida, despontam empreendimentos modernos antenados com os desafios atuais do mercado corporativo. Como é o caso do edifício Espaço Corporate 508 da Espaço Y, com sua arquitetura que estimula a criatividade e a interação entre as pessoas, integrando o espaço para uma gestão participativa em que o mais importante não é a quantidade de colaboradores, mas sim as variadas tipologias de trabalho em que se envolvem.

 

Revitalização da W3

Edifício Guimarães Rosa na W3 Norte.

 

Outro caso é o edifício Guimarães Rosa, hoje cede da ANTAQ na W3 norte, cuja arquitetura desafia a legislação pouco criativa da região, e se destaca com suas curvas sinuosas que tendem sempre ao infinito. Obra, que não por acaso, foi laureada como um dos dez edifícios mais bonitos de Brasília segundo o Correio Braziliense4.

 

Em resumo, hoje a W3 depende mais dos novos investimentos privados na região para que possa voltar triunfante a um papel de destaque, do que planos mirabolantes para sua revitalização. Se cada um fizer um pouco, em poucos anos a W3 volta a ser uma via central na dinâmica da cidade.

 

 

 

[1] Fonte: Relatório do Plano Piloto de Brasília
[2] Fonte: Na reportagem de Paulo Lyra intitulada "Comércio quer regatar
    o boom da W3 Sul" para o Correio Braziliense, em novembro de 1987. 
[3] Fonte: "W3 Sul, ontem, hoje e amanhã – os dilemas de uma avenida
    modernista" de Vera Bonna Brandão.
[4] Fonte: A nova (e boa) arquitetura da capital”, matéria publicada
    em 30 de setembro de 2012 pelo Correio Braziliense em que é listado
    por especialistas escolhidos pelo jornal um ranking com os 10 prédios
    atuais mais bonitos e originais de Brasília.

Imagem em destaque: fonte Blog do DFTrans.